terça-feira, 27 de junho de 2017

Histórias em quadrinhos vivem bom momento no Brasil, diz docente da USP

Inclusão de histórias em quadrinhos no Prêmio Jabuti valoriza produção nacional, afirma professor da USP

Waldomiro Vergueiro, professor da ECA – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens


Como observa o professor Waldomiro Vergueiro, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, o homem usa a imagem para se comunicar desde os tempos das cavernas, mas, mesmo assim, demoraram décadas para as histórias em quadrinhos serem reconhecidas como um meio de comunicação louvável.
No início do mês, um importante passo para esse reconhecimento foi dado. A Câmara Brasileira do Livro (CBL), que organiza o Prêmio Jabuti, anunciou que incluirá, pela primeira vez, uma categoria para histórias em quadrinhos (HQs) em sua próxima edição. A decisão foi tomada após a entrega de um abaixo-assinado para a CBL, apoiado por quadrinistas prestigiados como Laerte Coutinho, Marcello Quintanilha e os irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá. Ao todo, a petição acumulou mais de duas mil assinaturas.

Preconceito literário

Para Vergueiro, que é o coordenador do Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA, o preconceito com o formato das HQs tem origens históricas. A partir da Idade Média, a escrita começou a ser valorizada e ensinada para as classes mais altas da sociedade, enquanto as imagens se tornaram um meio para se comunicar com os grupos menos favorecidos, que não sabiam ler.
Com o tempo, texto e imagem foram se aproximando até que, em 1827, foi lançada a Histoire de M. Vieux Bois, do suíço Rodolphe Töpffer, reconhecida por muitos como a primeira história em quadrinhos do mundo.
Décadas mais tarde, a combinação imagem-texto já tinha atravessado o Atlântico. No Brasil, o italiano Angelo Agostini foi o pioneiro, com suas publicações em revistas que se iniciaram no dia 31 de janeiro de 1869, data em que hoje é celebrado o Dia Nacional dos Quadrinhos.
The Yellow Kid, a primeira HQ para as massas. Clique na imagem para ampliar
Depois de Töpffer, outro grande passo na história das HQs foi a publicação de The Yellow Kid, por Richard Felton Outcault, uma tirinha dominical publicada em 1896 e disputada pelos maiores nomes do jornalismo norte-americano da época, William Randolph Hearst e Joseph Pulitzer.
“A partir daí, quase todos os jornais passaram a ter histórias em quadrinhos nas páginas dominicais”, conta Nobu Chinen, professor de Publicidade e Propaganda da Universidade São Judas, membro do Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA e também do Troféu HQMix, principal premiação nacional de quadrinhos.
“Depois de 1907, surgem as tiras em quadrinhos diárias, formato que ajuda a consagrar o quadrinho mundialmente”, diz Chinen. “Na década de 30, surgem as revistas em quadrinhos como nós conhecemos hoje, os gibis e comic books. É nessa época que, por questões mercadológicas, os quadrinhos começaram a se voltar para o público infantil. Foi assim também que eles passaram a ser considerados como leitura de menor qualidade, fácil, para gente preguiçosa”, explica o professor.


As Aventuras de Nhô-Quim, ou Impressões de uma Viagem à Corte, de Angelo Agostini  – Foto: Reprodução Clique na imagem para ampliar

Com a publicação do livro The Seduction of the Inocent, em 1954, pelo psiquiatra Fredric Wertham, a reputação dos quadrinhos piorou. A pesquisa do médico sugeria que a violência entre os jovens havia aumentado por causa da leitura de HQs, que foi observada entre os jovens delinquentes. A publicação foi desmentida com o tempo, pois não eram apenas os jovens delinquentes que liam histórias em quadrinhos, mas sim a grande maioria dos jovens, independente de seus comportamentos. No entanto, antes de ser desmentido, o livro teve um papel importante na censura das publicações, com a criação do Comics Code Authority, código que define até hoje parâmetros para adequação de quadrinhos. Com o passar dos anos, seu uso foi abandonado por grandes editoras, como Marvel e DC, que criaram padrões próprios.

Mas HQ é literatura?

Vergueiro é categórico: “História em quadrinhos é história em quadrinhos. E literatura é literatura”.
“Histórias em quadrinhos são uma manifestação artística com dois códigos: a imagem e o texto”, justifica o professor. “A junção desses códigos com os recursos característicos das HQs (balões de fala, onomatopeias etc.) faz com que a forma de narrar dos quadrinhos seja única.” Mesmo que as HQs mantenham uma relação com a literatura através do texto escrito, elas também têm uma forte conexão com o cinema, o teatro e a ilustração.

Além de atuar na pesquisa, o Observatório de HQs da ECA possui um grande acervo de quadrinhos nacionais e internacionais. Reprodução da HQ Chiclete com banana, de Angeli – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

De acordo com Chinen, as principais características que diferenciam a HQ da literatura são a sequencialidade dos quadros — que exige que o leitor imagine o que acontece no intervalo entre um quadrinho e outro — e os símbolos gráficos, como as onomatopeias e os balões de fala — que não são sonoros por natureza, mas, ainda assim, conseguem expressar sons.
“Ao contrário do que se pregava antigamente, a leitura de histórias em quadrinhos não é uma leitura para preguiçosos. Pelo contrário, ela exige uma participação do leitor com a história que está sendo mostrada”, afirma Chinen.
Por ter códigos e recursos próprios — acrescenta o professor —, as histórias em quadrinhos podem ser usadas para quaisquer narrativas ou finalidades, seja ajudando na alfabetização de milhões de crianças ao redor do mundo, seja abordando temas densos de forma mais humana.
No jornalismo, por exemplo, Joe Sacco consagrou o “jornalismo em quadrinhos” com sua cobertura alternativa de conflitos armados. Em 1992, a graphic novel Maus, de Art Spiegelman, ganhou o prêmio Pulitzer, principal premiação do jornalismo norte-americano, ao abordar o Holocausto.
No caso de Marcelo D’Salete, quadrinista e professor de Artes da Escola de Aplicação (EA) da Faculdade de Educação (FE) da USP, sua obra se volta para questões históricas, da juventude e de discriminação.

Cumbe, de Marcelo D’Salete, conta histórias de resistência no período colonial. Foi publicada no Brasil, Portugal, França e Itália – Ilustração: Divulgação

“Quadrinhos são um recurso a mais na educação. É um meio que tem proximidade com os jovens de hoje”, observa D’Salete. Como professor, ele considera que a HQ “pode propiciar momentos relevantes para os alunos desenvolverem a leitura visual a partir de elementos do seu contexto atual ou do passado”.
D’Salete tem três trabalhos solos — Noite Luz (Via Lettera, 2008), Cumbe (Veneta, 2014) e Encruzilhada (Veneta, 2016) —, publicados no Brasil, Portugal, Argentina, França e Itália.
“Os quadrinhos dão conta de qualquer narrativa, desde que o autor tenha competência para isso. Um autor deve saber utilizar os recursos dessa ferramenta”, aponta Chinen.

Cenário do quadrinho nacional

Apesar da distribuição em bancas de jornal ser monopolizada, autores independentes estão conseguindo publicar suas obras com a ajuda de programas de incentivo à cultura ou por financiamento coletivo, o crowdfunding.
“Essa complicação (do monopólio) faz com que os artistas se dediquem a tiragens menores, para um público mais específico, interessado nesse tipo de publicação”, diz Chinen. Geralmente, as HQs e graphic novels são comercializadas na internet, em livrarias ou em eventos voltados para a comunidade nerd.
Como mencionado no abaixo-assinado, nove dos dez maiores grupos editoriais brasileiros já publicaram alguma HQ nos últimos dez anos. Além disso, quatro deles criaram selos específicos para atender a esta demanda.
“A valorização de histórias em quadrinhos por um prêmio de prestígio como o Jabuti — que não premia apenas obras da literatura, mas a indústria editorial como um todo — é muito importante. Isso sinaliza para a sociedade que nós temos um produto editorial consumido, que tem as suas grandes obras e que merece destaque”, diz Vergueiro.

No ano passado, a graphic novel Dois Irmãos ganhou o “Oscar dos quadrinhos” como Melhor Adaptação. A HQ é inspirada no livro de Milton Hatoum – Foto: Divulgação

Um exemplo da alta qualidade dos quadrinhos do Brasil é a constante presença de quadrinistas brasileiros entre os vencedores do Prêmio Eisner, o “Oscar das histórias em quadrinhos”. No ano passado, os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, formado em Artes Plásticas pela ECA, ganharam o Eisner de Melhor Adaptação por Dois Irmãos, obra do escritor amazonense Milton Hatoum. Antes disso, ganharam o prêmio de melhor minissérie por Daytripper (Panini Comics, 2011), em 2011. Na mesma edição, o também brasileiro Rafael Albuquerque ganhou o Eisner de Melhor Série Nova por Vampiro Americano (Panini Comics, 2010).
“Nós vivemos um momento muito bom na produção de quadrinhos no Brasil”, avalia Vergueiro. “Tenho a impressão de que nunca tivemos tantos autores brasileiros ativos, produzindo histórias em quadrinhos. Antes, você tinha o crivo da editora. Hoje, você tem a produção independente, para a internet, direcionada para prêmios governamentais, ou até mesmo a produção de fanzines.”
“Tem muito material interessante, que muitas vezes aborda vozes de minorias, coisa que no sistema industrial é quase impossível de entrar”, comenta Chinen.

Quadrinhos nas universidades

Além da produção para o mercado, as pesquisas acadêmicas sobre histórias em quadrinhos também têm crescido nos últimos anos. A cada ano, o Observatório de HQs da ECA recebe cada vez mais inscrições para seus eventos. Desta vez, foram aprovados 260 resumos para a 4ª edição das Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos, que acontecerá em agosto. As Jornadas Internacionais são realizadas em anos ímpares e, em anos pares, são organizadas as Jornadas Temáticas.
Além dos eventos, o Observatório também oferece disciplinas para a graduação e pós-graduação. Há 18 anos, Waldomiro Vergueiro ministra a disciplina Editoração em Histórias em Quadrinhos, que é uma optativa livre que já chegou a ter 140 matriculados. A matéria foi criada em 1972 pela professora Sonia Luyten, pioneira nos estudos de HQ.
Outros núcleos de pesquisa podem ser encontrados em todo o Brasil, como na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e na Associação de Pesquisadores da Arte Sequencial (Aspas), sediada em Leopoldina, Minas Gerais.
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